segunda-feira, maio 03, 2010

Resposta sutilmente tardia.

Enquanto discursas nesse mundo de achar que me conheces, nunca fiz questão de acabar com tuas certezas. Mas agora é diferente. Nessa manhã, pela primeira vez, tuas palavras de amor incompleto de tanto insistirem em me tocar, acabaram abafando o som desse murmúrio de desdém que envolve meus pensamentos sobre ti, e acabo te respondendo por escrita. Digo que é sutil meu atraso, porque nunca se responde rude quem diz ver amor quando você passa. Só por isso.
Não cabe a mim o teu texto grifado dando entonação a amores impossíveis. Não sou eu essa que você encontra quando vê meu corpo passando pela rua. Diferente de ti, eu vivo tudo o que temo, com maior intensidade e dilaceração poética que poderias imaginar. Mas você só me resgata do teu peito, assim viro plena e mentirosa, porque a verdade que queres escutar, nunca vai sair da minha boca.
Digo novamente, não invente uma história trágica que não nos cabe, porque não somos conto de nenhum sonho perfeito. Você esbarrou em mim em alguma travessia de etapa, não fomos predestinadas, não fomos feitas iguais, não me conheces.
Aí fico agora, quando quero acabar com tudo isso antes das minhas mãos se calarem diante desse julgamento obsessivo nos teus textos, pensando a que noite se referias quando disse que sou eu quem sempre vai embora, sendo que contigo, nunca estive em lugar nenhum.

domingo, abril 11, 2010

Ontem tudo explodiu.

Ontem, de repente, a cidade explodiu. Cada prédio, cada carro, cada banco, tudo. E a fumaça que ficou podemos ver agora de manhã, se você olhar daqui onde estou. Ainda não consigo ouvir a musica que costuma me despertar, tamanho barulho de destruição que agora ecoa nos meus ouvidos.
Confesso um pouco de medo em sair desse quarto, da cortina entreaberta me surpreender e revelar os escombros da outra noite, todos de pé.
Começo a tossir o sangue de quando não aguento o tranco de me remontar, começo a tossir o sangue das bombas dentro do meu peito. E o tic-tac desse relógio já não é mais nada poético.
Deixo meu olhos grudados no teto, e enquanto ele escuta meu silêncio dilacerador, tem um sobrevivente batendo na minha porta. Peço que entre, acenando pro nada.
Converso contigo e falo que não me interesso por vôos noturnos, que não quero desprender-me dos meus tijolos jogados aqui e ali, que não importa quando tempo você fique por perto.
Você me pergunta porque meu olhar está traduzindo minha bagunça interna tão claramente nessa manhã. Respondo que um celular que não toca acabou explodindo a cidade toda. Cada prédio, cada carro...

quinta-feira, abril 01, 2010

Sinto.

Sinto que todos os ossos do meu corpo podem quebrar a qualquer momento, rasgando a pele para expelir toda a raiva retida dentro dele, aquela que faz os dentes tremerem por não conseguir fechar os olhos em paz quando o dia se faz noite.
Sinto meu coração quando coloco as mãos sobre a nuca. Batimentos que deveriam servir de distração como se fossem o tic-tac de um relógio, porém fazem ter mais vontade de correr e dar murros em paredes que destroem aos poucos, o que de mim, eu sentia que era bom.
Sinto os pés incansáveis, trôpegos, tentando manter o corpo de forma sustentável. Levando-me aos piores lugares, fazendo-me dar passos a frente até a rua errada, nadando pela cama, procurando sustentação entre os cobertores sentindo mais frio do que nunca, sem poder nenhum de escolha, sem parada para um novo fôlego...
Sinto água escorrendo pela testa, e ela reflete minha preocupação com a saúde interna. Me dedico tanto a não desmaiar que acabo de olhos fechados sentido as gotas de suor, e minha pressão apressada vai baixando até o pulmão responder com respirações afogadas, rápidas e fracas. Acordo sem saber porque sinto tanto...
Sinto ferro atravessando a coluna e ultrapassando a garganta quando penso que deveria ter fome. E é tão forte a dor... Mais do que o medo que sinto de cair no esquecimento, queima cada poro quando penso que você está indo, deixando esse mundo inteiro ao meu redor.

segunda-feira, março 29, 2010

Dazed soundtrack.

Suffocating under words of sorrow,
All this things I hate.
The poison.
Her voice resides.
Green roof, cobble stone floor,
Winter eve at an outdoor coffe.
Juggling fire between fingers and lips,
She stood draped in a veil of smoke.
So I can go with the flow... You know.
But this flow are killing me, every step of every day. You know.
Could you please take a deep breath
And give me a count to ten?

quarta-feira, março 24, 2010

Raindrops.

Eu tento.
Mas não é suficiente.
Deixe-me pegar emprestado as nuvens cinzentas dessa tarde, para rabiscar sobre elas.
Vou enviá-las à sua terra inviolável.
E reze, para que não mudem de curso ou de forma
Como acontecem com as palavras.
Ou até que se choquem contra outros desabafos românticos
E escorram água como uma chuva de aplausos.
Há muito mais a dizer, e tenho, de fato, deixado muita coisa de lado.
Mas por agora, estou tentando perscrutar o mundo
Através das gotas de chuva que se agarram no varal da minha casa.

segunda-feira, março 22, 2010

Thirst unanswered.

Falar disso tudo de uma forma diferente, de algum jeito que não machucasse a retina quando eu fosse revisar o texto, deixaria na boca o gosto de ferrugem dessas grades hospitalares. Que para mim, acabam sendo mais familiares do que essa nossa prosa colocando pontos nos papéis em branco... Acostumei-me a enganar-me.
"Arruma teu rosto, menina. Levanta esse queixo. Esconde entre teus cílios que já não tens mais aquela ânsia por nos entender. Escuta-nos como quem ouve propaganda barata. Está pronta a tua mente para a nova enciclopédia de desculpas, e junto disso, uma gota do teu sangue nessa pele branca personificará o nosso discurso."
Encontrei três ou quatro motivos para vir até aqui ver com meus próprios olhos, mas aos poucos, fui perdendo eles pela janela entreaberta do carro. E a noite esfriou de repente. Quando vi um ou dois motivos no rodapé daquela sala para permanecer alí sentada, foi só por cansaço, foi pela espera não ser em vão, foi só pela viagem não ser um erro interligado as minhas decisões entre dúvidas. A certeza de que o silêncio reinaria e que aquela cara de "você já sabia..." não iria mais me chatear, tinha que ser concretizada para os meus passos futuros estarem completamente descalços de vocês, sentindo terra firme.

domingo, março 07, 2010

Tudo em tão pouco.

Ela esvaziou os teatros da cidade,e colocou todas as cadeiras no meio da rua . Mandou os cérebros petrificados para casa, e trancou os portões dos estacionamentos com fitas de presente. Desbancou os meus mestres e meus conceitos. Depois fez palco para a criança distraída e mostrou-me passagens que vão além do que sei. Louvou as folhas que já caíram no chão, e obrigou os hospitais em que já estive a abrirem todas as janelas. Fez o vento soar minha música predileta, e expandiu seu cheiro por todas as calçadas a nossa frente. Acabou com o peso da minha mochila, e entreteve tanto meus olhos que minha angústia diária sentiu-se acoada. Parou como quem não sabe o próximo passo que vai dar, e esperou-me decidir, ficou alí flutuando entre as construções que iam desabando ao nosso redor... E isso tudo só com aquele riso entre uma e duas da manhã.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A estrada.

Algumas coisas ficam com ar de desonestas ao tentarmos defini-las. Algumas pessoas dizem que suas vidas são influenciadas demais, justamente porque sempre tentam defini-la... Nós usamos como base da nossa verdade o pensamento, que para mim está subordinado à estrada... Como não podemos dizer onde exatamente está posicionada uma casa a menos que sairmos dela, como não se pode dizer o sabor da nossa própria língua... É prova de que não podemos usar o pensamento para definir algo que vem antes do pensamento.
Então, tudo o que podemos definir ou analisar, ou sequer imaginar são manifestações de ruas inexplicáveis vida a fora, de jornadas comparTRIlhadas conforme vamos fazendo curvas, e paradas. Isso é o que nos explica, é por onde andamos pensando, e às vezes por onde pensamos que andamos.
Também a certeza dessa enorme incapacidade do ser humano de definir o caminho é muito sinistra, a falta de um objetivo final, ou a mudança dele de um dia para o outro. Mas de que importa o gosto que tens na boca quando te perguntam para onde vais e pensas como J.R.R Tolkien, com aquele sorriso entreaberto: "West of the moon, east of the sun."

Temporário.

Andei lendo coisas que escrevi e uma parte minha não me reconheceu. Isso é mais doloroso do que qualquer espera, e mais sem sentido do que qualquer traição.
Andei escrevendo versos claros, falando como se conhecesse bem o que sinto... Não mantendo mais as aparências, em queda livre me joguei em ti de um jeito que me deu medo agora, tão grande a altura em que estou.
Andei pensando na liberdade que sentia antes do meu corpo ser tomado por uma coisa só... Tive imediatamente uma saudade enorme daquela respiração despreocupada tão cheia de mim, e faltou-me o ar...
Andei enjoada, abrindo e fechando todas as portas da casa como se isso fizesse alguma diferença para quem quiser entrar, como se eu pudesse me trancar aqui e deixar esse "sentir" todo, do lado de fora, só um pouco...
Andei escorregando no meu tom de voz ao falar contigo pelo telefone, matando a vontade dos dedos que te ligam em movimento involuntário. Esquecendo do quanto posso ser fria, agora grito desafinada que te amo, e te amo... Mas esse teu silêncio sempre irá me lembrar alguém.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

(En)canto.

Antes da dor, entre meu queixo e pescoço ainda sinto a leveza do teu sorriso tranquilo de mãos seguras nas minhas. Deve ser por isso que agora a febre vem em forma de insonia, e o corpo sente isso quando aos poucos vou tirando a roupa na procura insistente pela liberdade que só esse momento me dá. Mas nada acontece quando vejo que agora refletida em mim só há tua voz cansada, tão cansada e pesada que o impacto me cobre de cinza, fazendo-me odiar confessar que sou a mesma, e é porquê agora me vês com teus olhos de quem não precisa de ajuda que pareço tão exagerada...
Tenho me arriscado muito, dando tudo de mim para de repente, só mais uma vez me sentir daquele jeito, aquele que só você viu, e me reconhecer de novo, sem ter medo de tropeçar e perder um orgão vital pela estrada.
Hoje é dia 8 e tudo o que verei me fará pensar nos que já foram, no teu jeito de me fazer encontrar uma surpresa boa aqui e alí.
De tudo que já nos aconteceu, tiro de toda dor e felicidade tanta força, que se fosse algo que se pudesse entregar... Ah se eu pudesse te entregar algo mais do que tudo o que sou, talvez você voltasse a sorrir aquele sorriso que um dia me deu.
Sinto-me tão menor em relação a qualquer coisa, que agora te ver indo embora seria como brisa leve me levando para outro lado, viveria o meu tempo a passos rasos, com o corpo fazendo os pés andarem.
Não tenho mais espaço para tempestades e horas brincando de ping-pong com o teto jogando meus porquês pro alto. Quase enlouqueci te procurando em linhas tuas que de tão sinceras me faziam ter mais e mais medo de nunca conseguir viver sem isso.
Mas eu não sinto muito, não tiraria esse teu poder sobre mim por nada desse mundo, porque és amor, eu estaria em boas mãos até se não confiasse em ti.
Das coisas que já te disse, dos meus dias que te prometi, mantenho intacta cada palavra dentro de mim, para se um dia quiseres aquele refugio novamente...
Entre meu queixo e pescoço, agora engulo o que me dói, ato esse que concretiza minha desistência de viver esperando por algo. Na mesma hora, vejo teu rosto que mal toquei, mas que é o que conseguiria desenhar com perfeição mesmo daqui a dez anos, me sentindo com 18 novamente, a cada traço dado.
És a melhor parte de mim, sei que falo isso a cada estação, porém se torna mais verdade a cada vez que me repito.
Amo você, e dizer isso é a parte mais rasa dessa imensidão toda. Mesmo que agora tenhas mais receios, eu viveria uma vida te esperando e amando cada vez mais te amar, só pelo simples fato de entender que essa é a coisa mais real que já tive. Foi o que me salvou, o que me manteve de pé, e estando você do meu lado ou não, é o que vai me guiar sempre, todos os dias do mês.