terça-feira, setembro 07, 2010

Hoje eu tenho muito a dizer...

...e é exatamente por isso que calo-me. Mastigo as palavras enquanto tu desembaraças os nós que criei para essa finalidade. Uma a uma, elas descem pela garganta como se eu estivesse nutrindo-me de toda essa loucura.
Diante de ti, há um esforço tremendo para ficar sóbria dessa raiva que anda comigo cada vez que sem ti, penso que só consigo conter-me quando te ouço.
Não mais direi o que queria dizer-te antes que indo embora eu fale, meio sem jeito, que tu já sabias.

sábado, agosto 28, 2010

Então tu viesses...

Desenrola o cabelo do pescoço e encara o frio desse vento que te faz sentir o meu perfume. Escuta o som do mundo, e o que ele fez para estares aqui tornar-se-á escrita nos muros da cidade, dentro do caderno na tua letra, entre o que quero que saibas sobre mim...

Relaxa, ninguém pode falar de si sem falar sobre outro alguém, pesadelos são mais reais quando estamos sozinhos, e a gente já se cruzou sentindo a mesma coisa... Descanso o corpo como se ele estivesse no ar segundos antes do suicidio, poesia concreta.

Faço-te uma casa, abro-me para um abraço, deixo estar o que me é mais importante, e permaneço aqui.

Enquanto discursas teu gosto, percebo o quão finita é a linha entre a tua boca e o que dizes. Chego mais perto para esquecer a fala.

Estamos esperando você ir embora, estamos encontrando as palavras certas para deixar isso claro. Estamos certas de algo que não é dito, quero dizer.

O que me fez ficar, mesmo com tanto sono, é a ideia de que logo nos remontaremos sem essa parte que surge quando você fala e eu penso. Guardo aqui nesse texto, como uma caixa de remédios no armário.

Por hora viro-te pra ver o que vejo, e logo nos desencontramos porque não consigo tirar os olhos do teu rosto. Enquanto tu achas que estás sozinha no que pensas, estou me tornando parte do teu corpo, para ver através dos teus olhos o que eu não conseguiria ver com os meus, quero dizer.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Eles precisam fazer barulho agora...

Agora que quero companhia silenciosa de pensamentos voadores, a casa inteira grita e sinto as janelas tremerem. Tudo tão intacto, cheio de alguma coisa desconfortável que penetra no vidro.
Não posso deixar de ver, mesmo fechando os olhos com força como quando criança. Alguns costumes como esse voltam a tona nessas horas, são os mais naturais, os que mais se parecem comigo.
Fechando os olhos lembro de quando dizia o quanto a amava e sentia o beijo preso na garganta, noto que ele ainda está aqui, e às vezes engasgo tossindo vontades pelo meu caminho.
Comprei o cheiro que me lembra os poucos beijos consumados. Vou espalhar pelo quarto... Assim como pele postiça flutuará no ar, até penetrar no que me é desconfortável. E talvez fechar os olhos agora, faça o mundo silenciar-se.
Então boa noite, amor. Saiba que te vejo como ninguém ao teu lado te vê, entre minhas pálpebras bem fechadas tenho sua expressão mais bonita, e esse sorriso é visível só para mim, nem tu sabes dele.

domingo, agosto 01, 2010

Preciso reconciliar-me com meu corpo.

Deixo-me em casa, e meu corpo sai escoltado pelos seus novos movimentos rápidos. A pele tentando acompanhar, perde-se nesse misto de convicção e ingenuidade, e acaba afogando-se em seu próprio suor. Tento não me escutar nessas conversas mecânicas de quintas intenções, porque guardo o apreço que tenho pela voz em algum lugar entre os órgãos vitais.
Deixo-me em casa enquanto meu corpo voa mutilando-se por escolher vias fáceis para lugar onde a dor acontece já na escolha da partida.
Tenho observado-me ser eu, e não consegui me acompanhar.
Não posso mais conviver com essa angústia de querer mais e mais, sobrando tão pouco pela manhã.
É julho e já faz calor. Enquanto todo mundo congela, sinto tanto calor... E a pele continua descolorindo-se a cada toque de mãos que vão apagando cor e textura.
Por isso pensei em voltar, para resgatar o que você desperta em mim, esse medo de morrer que justifica momentos em que o tempo pára e a gente não consegue respirar. Sinto falta de temer por ti e por mim. De ser uma coisa só.
Pensei em chegar cega, aguardando o toque do teu cheiro, e sentir tuas unhas na minha nuca em forma de arrepio. Entretanto sei que são exatamente esses devaneios que me mantém em casa, pedindo-me para fechar a porta ao sair. Digo a mim mesma para voltar fisicamente intacta, que minha parte doente ficará nesse silêncio entre minhas coisas que aos pedaços flutuam sobre a cama.

terça-feira, julho 06, 2010

Por fim, o começo.

Percebo o novo que caminha ao meu redor mas não me encosta.
Você vê amor... E eu tenho uma série de doloridos déjà vus.
Du bleibst, wo du bist Gta.

sexta-feira, julho 02, 2010

Do que vês, o que reparas?

Fiquei com medo de não voltar a escrever, posto que o texto anterior fosse como o último suspiro consciente antes de dormir uma década. Mas a cabeça voltou à rotina diária de letras sobrevoando muros, saltando de janelas, fazendo cócegas entre os vãos da minha roupa... E respirando pontuação, piscando haicais, sorrindo rimas perfeitas, meus pés novamente pisam firmes no chão.
Entre os livros reabertos frente ao espelho, percebo que os olhos têm se fechado menos. O cabelo cresceu, o rosto anda se parecendo mais comigo, contudo as mãos são as mesmas. Do que controlo, mudou o cheiro da pele, o gosto da boca, uma sensibilidade antiga que foi revista como exigência de meu peito, e a gagueira silenciando-se diante de convicção...
Vi hoje, entre um cigarro e outro, você enxergando essas coisas minhas que soaram como novidade. Mas não são, você sabe. O caso é que minha insistente marcha à sua incompreensão é o que me trouxe o teu sorriso de hoje. Aquele que antes mesmo eu via, e agora descrevo no mesmo tom de começo que teu toque deixou nas minhas costas.

terça-feira, maio 11, 2010

A verdade que vos fala.

A verdade que vos fala vem despindo-se aos poucos, diante do teu olhar prescrutador. A verdade de hoje não é a mesma de anos atrás. Mudará daqui pra frente, mas quer você assistindo cada quebra de linha.
Paro, em algum sonho costumeiro dessas noites que te espero, longe o bastante para que vejas todo o meu corpo, perto o bastante para que sintas a vontade que pulsa em mim dos teus passos, certos do que fazem, me alcançarem como por instinto.
A boca que te fala sobre amor é a mesma que já te renegou pela dor de dias contados no calendário. Os olhos que choram saudades tuas são os mesmos que se fecharam diante das necessidades óbvias que vinham na tua voz, tão egoístas degustando escuridão... As mãos que agarram o vento e te sentem, são as mesmas inúteis que os outos vêem vivendo sozinhas sem teu rosto por perto. O sorriso sincero, presente aos teus olhos, é o mesmo que enfraquece e perde a graça, quando a boca que fala sobre amor te renega na dor da espera. Quando os olhos, já secos do choro da saudade, te vêem cansada e de voz fraca, o vento cessa. E as mãos confusas soltam-se do braço e dão murros contra a escuridão. E por não conseguir ver teu rosto, o corpo inteiro se cala, numa verdade silenciosa que só entenderia alguém humano demais.
A verdade que vos fala, dentro de si te eleva, te vê desabar, te invade, aquieta-se em confusão, mente tão cheia dos seus motivos verdadeiros, se debate em mínimo espaço, e voa contigo a lugares lindos que viraram as certezas que temos. A verdade que vos fala, te juro, susurra todas as promessas de sempre entre as reticências que abrigam o "nós".

segunda-feira, maio 03, 2010

Resposta sutilmente tardia.

Enquanto discursas nesse mundo de achar que me conheces, nunca fiz questão de acabar com tuas certezas. Mas agora é diferente. Nessa manhã, pela primeira vez, tuas palavras de amor incompleto de tanto insistirem em me tocar, acabaram abafando o som desse murmúrio de desdém que envolve meus pensamentos sobre ti, e acabo te respondendo por escrita. Digo que é sutil meu atraso, porque nunca se responde rude quem diz ver amor quando você passa. Só por isso.
Não cabe a mim o teu texto grifado dando entonação a amores impossíveis. Não sou eu essa que você encontra quando vê meu corpo passando pela rua. Diferente de ti, eu vivo tudo o que temo, com maior intensidade e dilaceração poética que poderias imaginar. Mas você só me resgata do teu peito, assim viro plena e mentirosa, porque a verdade que queres escutar, nunca vai sair da minha boca.
Digo novamente, não invente uma história trágica que não nos cabe, porque não somos conto de nenhum sonho perfeito. Você esbarrou em mim em alguma travessia de etapa, não fomos predestinadas, não fomos feitas iguais, não me conheces.
Aí fico agora, quando quero acabar com tudo isso antes das minhas mãos se calarem diante desse julgamento obsessivo nos teus textos, pensando a que noite se referias quando disse que sou eu quem sempre vai embora, sendo que contigo, nunca estive em lugar nenhum.

domingo, abril 11, 2010

Ontem tudo explodiu.

Ontem, de repente, a cidade explodiu. Cada prédio, cada carro, cada banco, tudo. E a fumaça que ficou podemos ver agora de manhã, se você olhar daqui onde estou. Ainda não consigo ouvir a musica que costuma me despertar, tamanho barulho de destruição que agora ecoa nos meus ouvidos.
Confesso um pouco de medo em sair desse quarto, da cortina entreaberta me surpreender e revelar os escombros da outra noite, todos de pé.
Começo a tossir o sangue de quando não aguento o tranco de me remontar, começo a tossir o sangue das bombas dentro do meu peito. E o tic-tac desse relógio já não é mais nada poético.
Deixo meu olhos grudados no teto, e enquanto ele escuta meu silêncio dilacerador, tem um sobrevivente batendo na minha porta. Peço que entre, acenando pro nada.
Converso contigo e falo que não me interesso por vôos noturnos, que não quero desprender-me dos meus tijolos jogados aqui e ali, que não importa quando tempo você fique por perto.
Você me pergunta porque meu olhar está traduzindo minha bagunça interna tão claramente nessa manhã. Respondo que um celular que não toca acabou explodindo a cidade toda. Cada prédio, cada carro...

quinta-feira, abril 01, 2010

Sinto.

Sinto que todos os ossos do meu corpo podem quebrar a qualquer momento, rasgando a pele para expelir toda a raiva retida dentro dele, aquela que faz os dentes tremerem por não conseguir fechar os olhos em paz quando o dia se faz noite.
Sinto meu coração quando coloco as mãos sobre a nuca. Batimentos que deveriam servir de distração como se fossem o tic-tac de um relógio, porém fazem ter mais vontade de correr e dar murros em paredes que destroem aos poucos, o que de mim, eu sentia que era bom.
Sinto os pés incansáveis, trôpegos, tentando manter o corpo de forma sustentável. Levando-me aos piores lugares, fazendo-me dar passos a frente até a rua errada, nadando pela cama, procurando sustentação entre os cobertores sentindo mais frio do que nunca, sem poder nenhum de escolha, sem parada para um novo fôlego...
Sinto água escorrendo pela testa, e ela reflete minha preocupação com a saúde interna. Me dedico tanto a não desmaiar que acabo de olhos fechados sentido as gotas de suor, e minha pressão apressada vai baixando até o pulmão responder com respirações afogadas, rápidas e fracas. Acordo sem saber porque sinto tanto...
Sinto ferro atravessando a coluna e ultrapassando a garganta quando penso que deveria ter fome. E é tão forte a dor... Mais do que o medo que sinto de cair no esquecimento, queima cada poro quando penso que você está indo, deixando esse mundo inteiro ao meu redor.