sexta-feira, fevereiro 22, 2013

O sol espanca meus olhos despertando-me do último pesadelo de mais uma de minhas noites mal dormidas, e numa tentativa frustrada de dar um sorriso esbarro nas palavras dela.
Esperei um dia propício para lhe dizer algo importante, que agora, não consigo mais lembrar. Escondi algo valioso do meu passado dentro de mim, e quando te disse soou tão pequeno... Encontrei as chaves de todas as portas para me encontrar, mesmo aquelas que estavam trancadas pela parte de dentro. Enforquei meu ego antes dele dizer suas palavras finais. Desmanchei meus diários e embaralhei todas as páginas para que aquele personagem nunca mais venha a tona. 
Queimei minhas razões, como o sol de hoje que veio para queimar a pele, destruindo toda e qualquer possibilidade de reerguer algum erro do passado das cinzas que sobraram pelo chão.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Ponto de partida.

Escrevo-te hoje em total desordem porque é como você me conheceu, metade achada, metade perdida...
Só porque o sentimento de agora não é relatável, não vou me render a decepção que a simplicidade desse texto pode me dar, diminuindo o que é imensurável e aumentando a distância entre nós.

Escrevo-te hoje pois viver é atrapalhar-se entre as palavras que criamos. E se eu pudesse fazer de outro jeito, meu bem, tu sabes que eu não voltaria a testar tua tese dos meus "ciclos" de palavras.
Não vou mais tentar encontrar em mim ou em nós, artifícios para bancar toda essa história já que agora não temos mais a mínima possibilidade de sairmos ganhando dela.

Escrevo-te hoje, para dizer algo sobre minha total impossibilidade de escrever-te como antes. Para dizer que fiquei mais silenciosa, que perdi uma certa amizade que eu tinha com meus pensamentos depois que provei o gosto do tempo que passou enquanto eu tropeçava em qualquer coisa, e eras tu que caías.

Escrevo-te hoje, para nomear aquele sentimento que eu disse que estava procurando em mim... Era mais fácil ser a pessoa dos teus sonhos quando tudo o que eu fazia era sonhar também. Ninguém consegue escapar de criar jeitos de driblar o tempo enquanto o amor não acontece...

Escrevo-te hoje para dizer que quando eu projetava tudo o que eu dizia saber sobre o amor, imaginava alguém como tu na minha porta.

Escrevo-te hoje para mostrar que agora sei sobre tudo o que eu falava, sobre o que eu ansiava todo dia, e que estava bem ali na tua chegada e no teu jeito de embaralhar minhas palavras...

Sei que agora não existe verso ou frase feita que faça algum efeito em ti, não existe mais minha combinação costumeira de argumentos que pedem perdão sempre de pé... Só a mesma garota que tu conheceste voltando a vida, sabendo que desperdiçou a única chance de fazer-se ter razão sobre o que é amar, quando no começo negou o amor que sempre esperou sentir.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

És tu.


O plano seguia bem, aquele deveria ser o último bar e eu deveria sentir pela última vez a sensação de estar bailando trôpega na corda bamba que divide meu passado do futuro que quero.
Escutando barulho de chaves se batendo ao fundo, reconheço o sinal sonoro de quem está por vir. Aquela garota não é de surpreender ninguém, sempre avisa sua chegada para não ser cumprimentada por nada menos que um sorriso. Mas naquela hora da manhã meus olhos já estavam gradativamente se pondo cegos a qualquer toque de realidade, de mãos... Resolveram transportar-se para dentro do meu corpo, e assim estive me enxergando sem a mínima vontade de virar o rosto, de sentir qualquer outro gosto, ou de me animar com a chegada de qualquer outra pessoa que não seja a que provocou essa reconstrução interna.
O som daquela chegada ficou cada vez mais forte, e ensurdecia-me de propósito. Até que pude me tornar invisível a todos e respirar no compasso certo de meus pensamentos...

O entra e sai daquele lugar me fez calcular quantas portas ainda terei que abrir para tu saberes que quero que entres. As palavras doces e sussurros de outras mesas me fizeram imaginar quantos quebra-cabeça de declarações ainda vou ter que montar no teu corpo. A minha saída do bar, e o sentimento de que qualquer lugar é igual a menos que estejas nele, me fez ter a certeza que não tenho mais o que esperar, porque és tu.



terça-feira, dezembro 11, 2012


Cuidadosamente ela tranca a porta do quarto como se estivesse deixando em stand by seu presente. Deita na cama fechando os olhos e rindo com a ideia de abri-los e ver-se três anos mais nova. Acha engraçado estar nessa idade em que todo passado não é tão distante cronologicamente. Suspira e diz ao seu travesseiro: "três anos, deveria parecer ontem...". No entanto, ela sabe muito bem que fechou tanto os olhos quando esse passado era presente e doía, que agora é tarefa impossível vê-lo nítido novamente. 
Começa a divagar pelo quarto contando para si histórias incríveis do que poderia ter acontecido, do que poderia ter sido, do que deveria ter feito... A voz começa a ficar rouca a medida em que lembra do rosto, quase sentindo o gosto das antigas possibilidades. 

Encara o espelho e sabe que já não tem a mesma face, que já não lhe cabe mais a fúria por ser quem é.

Percebe o quanto sente-se sozinha quando quer ficar só.


Disca o número de alguém que entende quando ela diz: "só liguei para saber se tu ainda estás aí...".



sábado, novembro 17, 2012

E poderia ser mais...

Enquanto as galáxias se deslocam para o vermelho de Hubble, enquanto a velocidade da luz em um meio a um vidro ou o ar, fica menor que c (celeritas = velocidade), enquanto um tumor desenvolve um conjunto de rede de vasos sanguíneos para se manter, enquanto as plantas utilizam dióxido de carbono e água para obter glicose através da energia da luz, enquanto a luz do sol atravessa um trecho de chuva e é refletida e refratada no interior das gotas e devolvida em várias cores ao ambiente formando um arco-íris, enquanto uma briga entre namorados resulta em uma cabeça começando a apresentar ideias obsessivas prevalentes ou delirantes sobre infidelidade, enquanto em um dia de trabalho uma professora tem um insight e entende o papel do erro segundo Piaget, enquanto alguém explica a um leigo um assunto cujo qual sabe muito e sente-se orgulhoso por ter voz ativa, enquanto pela primeira vez algum músico consegue interpretar e executar um som por via dos sistemas de escrita utilizados para representar graficamente uma peça musical, enquanto alguém boceja estimulando a circulação sanguínea e diminuindo a temperatura corporal para driblar o sono em uma conversa... Ela continua naquele sofá, iceberg que se tornou.

sexta-feira, novembro 16, 2012




O que desperta contigo toda manhã garota? Acabou-se o mistério? Cadê a música e os versos em atitude? Não vejo mais o amor incondicional exposto, a fotografia a mostra, seus desenhos grudados na parede, você no palco representando uma mentira linda, você se reconhecendo no reflexo do espelho... Você... Você... Cadê?


Entregue a terceira pessoa, continuas falando de si usando como exemplo de felicidade alguém que eras. Como se a culpa fosse da própria inspiração, por ser maior do que o comum na época, ter sumido agora. Como se mais alguma coisa além de você prendesse suas pernas entre os cobertores. Como se cada pensamento, gesto e decisão sua, não continuem cobertas por um só nome...


quinta-feira, novembro 08, 2012

Às vezes tenho medo do que eu não consiga dizer quando não estou metaforizando... Que não sou obra de ficção, que espero por respostas como todo mundo, essas coisas... Mas um amigo me disse que a destruição é uma forma de criação, então talvez eu me destrua um pouco, talvez agora eu me desconcerte para poder descrever aqui como fui juntando meus pedaços.

segunda-feira, outubro 29, 2012


Passo o dia suspirando e sorrindo para a câmera que esconde aqueles olhos castanhos. E as fotos acabaram mostrando mais do que deveriam.
Desde que começaram a existir na minha vida, os dias de folga quando estou só, são sacrifícios semanais. Nesses dias vejo pessoas tentando chegar perto de mim, e as imagens entram pela retina com o único propósito de aquecer o coração. Porém, confrontam-se com a imagem do meu amor perdido, que está por trás dos olhos. Então qualquer outra que se arrisque a entrar, só vai até ali. 
E tudo, só vai até ali. Ninguém entra enquanto esse amor não se dissipar, enquanto uma foto minha não dizer mais do que todas daquele dia: "não vejo a hora de saber o que estou fazendo aqui...".

terça-feira, outubro 23, 2012

C.G.

Há muito tempo atrás em dois universos particulares, houve um terremoto de palavras tão grande, que nem os meses de calmaria e silêncio fizeram desaparecer os escombros pelas ruas. Esse terremoto mexeu o mundo todo de duas pessoas, as peças caíram nos lugares errados, e agora ninguém lembra onde é o lugar certo de cada coisa. E de tanto procurarem seus lugares e não encontrarem, essas pessoas já não sabem mais quem são.

Enquanto o mundo vai se desajustando cada vez mais, e o desespero por não saber se estão procurando no lugar ou nas pessoas certas, ou se sabem o que é certo, ou até se ainda sentem alguma coisa, invade o peito tão forte que o grito de uma, um dia talvez ecoe no ouvido da outra, como um dia cantaram:
 I know I'm so far away but you can put this song to play...

domingo, outubro 14, 2012



Talvez eu já tenha te visto mesmo, num desses sonhos em que a realidade é uma coisa pouca quando se acorda. Pode ser que eu já tenha te sentido mesmo, na brisa leve que acalma meu corpo no vai e vem rotineiro dos dias, em alguma gentileza de um estranho, ou em um abraço carregado de saudade...

A cada encontro com teus olhos, cego-me mais para outros olhares. E fico diariamente sem palavras para descrever o quanto eu já quis saber o que era emudecer-se diante de uma voz.

E ao mesmo tempo é só isso: Eu te esperando enquanto tua vida segue as coisas que achas que devem ser contempladas.

E assim é que a letra foge dos meus dedos e minha voz some da boca. Enquanto o amor toma conta desse corpo cansado, fecho os olhos dando boa noite aos meus rabiscos, cartas e xícaras de café, esperando que amanhã, quem sabe, eu encontre a chave que destranque esses pensamentos de mim.