quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Inerte.

Mesmo com tanto calor, ela não conseguiu tirar a roupa.

E por mais que quisesse. nem o maior sono permitiria que fechasse os olhos.

Se pudesse dormir, torceria para não acordar mesmo no seu pior pesadelo.

Mais tarde, o peso que fez os ombros doerem deixou marcas de unha, como se fossem avisos.

O copo quebrado não a fez juntar os cacos, o tecido estampado não a fez rever as cores.

A música não a fez tremer o corpo, o desejo não a fez dar um passo sequer.

O encanto não resgatou o sorriso, o medo não a fez recuar.

As ideias perderam o juízo, a arte estava ausente no mundo.

Nos toques nada se sentia, em fotografias não via a mesma eternidade.

Por isso, guardou sua voz para algo grande, e ainda está alí calada, esperando alguém lhe fazer a pergunta certa.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Vai, vai discursando tua nova vida... Você anda tão perdida... Como quem defende os fracos condenando os fortes à mesma dor... Assim não estamos falando de equilibrio, falta a ti a compreensão de igualdade. E em controvérsia constante, vejo-te deixando-me como espectadora, sem pensar que teu show já passa para uma sala vazia de mim.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

E de ti, o que tens?

- Eu me sentiria melhor na vida se soubesse que você está bem, só.

-Eu me sentiria melhor na vida se você soubesse que isso é egoísmo, daqueles que te fazem perder o foco da escrita, posto que é só isso. É acomodar-se com um mistério. Sempre quero saber o que tens de ti, além do que sentes por hora...

- E de ti, o que tens agora?

- Mais ou menos 12 escolas, 5 grandes escolhas, algumas marcas no corpo, uns dois amores e uns riscos que não corro mais. Tenho uma forte lembrança de quando alguém me pediu para ver cores de olhos que sempre foram negros, e só entender anos mais tarde. Tenho uma mágoa que insiste em me por de pés firmes no chão gelado, e um segredo que levita meu corpo enquanto durmo.

Tenho mais reticências que um texto permite, sou um drama de propósito. Vejo perguntas em pontos finais alheios, encontrando em mim uma falha genética.

Enxergo diariamente meu medo de ter inteligência barata, e não conseguir parar de resolver cálculos matemáticos como prova real inconsciente sobre mim.

Estou armada até os dentes de tudo o que acredito, e atiro.

Especialmente hoje, sinto falta de um lugar verde, de um apartamento e apertar o 10º andar, da voz noturna cheia de histórias, de alguns chapeis e algumas vitórias, também de não dormir sem rimar... E, para a conversa fazer sentido a ti, estou bem sim, mas isso é o que menos importa, tendo em vista o que poderias saber antes de eu te dar boa noite cheia de fragmentos mais exatos.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Às breves ações, abreviações.

Com a boca vou escrevendo falas soltas no tempo entre ouvidos de quem escutar. Nunca foi tão bom sentir saudade disso, que é sentir-se entregue a si mesmo depois de uma viagem.
Aqui tudo ficaria propositalmente confuso o roteiro desse meu pensamento. Tudo inconclusivo para você ter que ouvir em frase breve, em movimento, sem brilho difuso de tela, minhas abreviações em atos que dão sentido a tudo.
Nunca estive tão ausente do meu refugio. Não quero me explicar fluindo, quero que venhas comigo.

domingo, janeiro 02, 2011

Não sei bem onde voa essa música que ontem soprava lá fora...

Não sei bem onde voa essa música que ontem soprava lá fora, que batia na janela ansiosa por mim. Certamente solidificou-se na parede que vou pintar essa tarde, porque o pensamento de alguém que ama não consegue ser um só e desloca-se com facilidade solidificando-se nos objetos, espero limpar essas sutis respostas com tinta. Não quero mais pensar em pensar nela e no que me foge sabendo que é nela que vou encontrar depois, talvez anos mais tarde.

É visível em meus olhos o porquê dos passos apressados, mas os deixo descansar pensando sobre nós, às vezes. Lembro de sua voz, de suas feições e imagino uma cena que não existiu, posso sentir o cheiro que faz minha lágrima ter gosto.

As pessoas dessa casa, hoje me provocaram risos porque uma pedra vista de perto pode ser tão estranhamente ilária, nunca notei. Até me surpreendi vendo chover sem entristecer-me com tantas gotas sem gostos, e por ninguém entender o quão só é achá-las tão idênticas e frias. Aqui não importa, porque meu pensamento já não cabe mais em uma lágrima, nem nesse rio que escorre do céu. Cabe na dança da garota pela cozinha, que embala o braço do menino homem que prepara a comida, fazendo do piso palco para a platéia atenta formada por mim e pelo gato. Eles não notaram o animal ali, justamente porque não existe divisão de seres, aqui se compartilha o que é ser humano. E a vontade de escrever é a única coisa que me impede de sair lá fora e sentir meu corpo queimando, numa chuva que purifica e dói de tardia.

Não posso mais ser duas enquanto ela não entender o vazio que me traz, a alegria que me traz, e as vontades que vão me fazer ir com eles, viajando pelos prazeres da estrada, até esse alguém que personifica meu amor, estiver pronto para me dar a mão. Talvez nunca esteja, e esse desencontro seja encontro para outras coisas em nossas vidas, ela me trouxe aqui. Ela que vai me fazer sair da cidade, e ela é aquela música soando na janela, e presa entre a tinta da parede, te preservo minha, meu amor. És meu amor de tão seu ele ser. Não vai deixar de ter esse gosto, porém não procurarei mais os segundos que saem do relógio de pulso pela casa vazia, espalharei por aí, divertindo-me com dança de cozinha.

Sabendo que meu tempo ainda é todo teu, aguardo-te fluindo.

Sirius B.

terça-feira, dezembro 28, 2010

06:48, e é tudo teu.‏

Conto meus passos até a outra estante, e eles deslizam como se ainda tivessem rodas.

Escolhi para essa manhã, essa em que o quarto continua vazio de você e de mim, um livro cinza. O sol tenta abrir as cortinas, e mesmo ele escorrendo luz entre as frestas deixando tudo meio sépia e com um cheiro de promessa matutina, não abro mão da capa cinza.

Deito em cima da minha saudade, e flutuo pelas letras escutando uma música que você nunca toca, dentro da cabeça, uma cena que nunca existiu.

Perco meu tempo, e logo procuro meus segundos embaixo dos móveis.

Alguém bate forte na porta, sinto que machuca as mãos. Enquanto isso sinto a textura da chave e a certeza de que quero ficar sozinha não me impede da gentileza de destrancar, ando cansada de ser assim.

Alguém entra e me pergunta o que faço entre tantos papéis, diz que a febre chegou, que me atrasei para o próximo diagnóstico... Sabe, eu queria explicar, mas essa é uma daquelas verdades que só faz sentido a quem diz...

Se eu contasse... É, ouviria gritos de que existe um relógio em meu pulso, outro na parede, outro no computador, outro na tv, outro no celular... E eu continuaria nesse quarto vazio de mim e de você, procurando pelo meu tempo para guardar um pouco mais de mim para ti, quando existir um tempo cheio de nós.

Talvez a gente leia cores vivas e sinta o vento lá de fora... Talvez, por enquanto estou dormindo sem descansar, e acordando com esse medo de nunca mais te ter aqui, tendo que levar meu tempo comigo.

Então vem logo, minhas gavetas estão quase cheias, e é tudo teu.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Amargo.

Minha boca não mastiga mais os vidros que você solta nesses beijos. Agora o grito que ecoa na garganta é de uma solidão só tua. Não tenho mais tempo para esse tormento de desenhar minha paciência no ar com os dedos, em cada cena quando você se atrasa, quando você insiste em permanecer nessa coisa de achar que ninguém se perde do alcance do teu olho.

Então digo que você já perdeu a cor, o cheiro e o dom de me fazer ficar, todo dia, esperando mais de ti.

Toma teus planos e programas, toma teus casos e descasos, toma tuas falas ensaiadas e silêncios propositais, e engolirás tudo como água limpa. Não te corta a garganta porque aqui os únicos cacos que existiam, eram decorrentes da tua presença roubando minhas horas.

Sei, que lembrando que você já teve algo tão doce, tudo terá gosto amargo no final. Mas te contenta, devolve minhas lentes, coloca as tuas e segue meio amarga, meio quebrada, meio amada.

domingo, dezembro 05, 2010

Das oito às oito.

Entregue a terceira pessoa, a menina continua falando de si usando esses exemplos bárbaros de heróis de guerra. Às vezes sente-se mais sozinha, e é quando o som dos primeiros carros da manhã invadem a janela do oitavo andar. Suas razões para levantar de nada adiantam por esses minutos de solidão amarrarem as suas pernas entre os cobertores.
Pensa em não ser mais tão vulnerável e jogar-se dentro de si, como quem não tem medo de seus sonhos. Mas, inerte, a dúvida sobre o porquê dessa construção que faz de sua solidão, dói tanto... Tenta não pensar mais em soluções. Sabe que para levantar precisa estar certa que não vai buscar nada além das coisas que pode ter.
Por isso ela deixa de te ligar, deixa de te mostrar o que invadiu seu mundo e que não dá mais espaço para conversas otimistas. Amarra as próprias mãos num livro e seu pensamento em quaisquer palavras que não sejam as suas, porque tudo nela acaba te procurando.
A cada nova versão de acontecimentos que se repetem, mais essa vontade de viver só com o que se tem a mão parece ouro.
Quando levanta, ela repete para o vento o quanto ele a traiu, já que o amou tanto que todo susurro agora soa falso por sentir o vento que traz, esse vento que não avisou que poderia levar também.
Anda até a sala e se indaga sobre que tipo de pessoa se tornou a partir do momento em que algumas coisas mudaram de forma, ela sabe que não é uma pessoa ruim, e que o amor deveria ser uma coisa boa.
Acaba não tendo mais problemas para se locomover por essa manhã, posto que se purificou com seus sonhos pequenos, com suas vontades que não invadem ninguém, conformada com a hora que passa e não volta. Mas antes de dormir, grita que nunca teve um problema real dentro de si, que só estava tentando ser a denúncia do que estavam fazendo com ela, enquanto ninguém ouvia.
E tu, que é para quem ela não liga mais, como podes exigir a fala se não sabes, primeiramente, o que significa o silêncio?

sábado, novembro 20, 2010

Falência de múltiplos ideais.

Garoto, que cores são essas que agora vejo por todo o pano que te cobre? Antes percebia nos teus olhos, que agora são só mais um par de olhos negros e você deixa estar.
Não consegues mais ouvir as músicas que te faziam ficar de pé porque não traduzem mais versos em atitude nessa tua vida que não tem espaço para muito mais além de você mesmo.
Deixasse tua cara vazia de sinais de fogo, teu mundo sem um rasgo na calça jeans. As tuas grandes vontades por feitos pequenos que nos faziam correr, mudaram.E me assustei te vendo sonhar alto demais, tão sozinho, enquanto passas o dia todo esperando que algo que sabes, não vai acontecer, aconteça.
O que aplaudes agora? Vejo-te com as mãos inquietas por monitorar cada toque... Garoto, segura firme esse espelho, vê o que sobrou daquela segurança na fala, e convicto de seus passos me diz o que de ti, também tenho que deixar estar.
Sinto falta do cheiro que nesse verão não tem mais. 

quarta-feira, novembro 17, 2010

Troca.

Esconde entre a pele o tom dessa tua roupa de sempre, e veste azul. Troca o gosto da tua saliva e respira bem fundo toda essa vontade de voltar atrás. Engole antigos conceitos com o ar, e faz sair de ti o inimaginável, muda de voz.
Encosta tua cabeça entre o mundo e meu ombro, sente meu sorriso acontecendo. Troca a cor dos teus olhos quando falar de amor comigo, segura forte teu peito contra o meu sem me tocar, faz arder uma saudade nova.
E te consola junto comigo meu bem, troca tudo como eu, que nas horas vagas a pessoa do amor que sabemos ter guardado em nós, vai lembrar de alguém que não existe mais, só assim seremos 2.