sábado, outubro 06, 2012

"Mas tu prometeste..."

Nenhum telefone toca, nenhuma mão se estende, nenhuma frase para ser lida, nenhuma voz que vai chegar, o silêncio do quarto a faz cair na real, cair no chão. 

Ela se contorce em dor chutando as paredes, derrubando o espelho, rasgando livros, encontrando em si uma resistência incrível para a dor física quando um a um, os cacos vão rasgando sua pele a fim de mostra-lá que está viva. 

Grita com a boca que treme, o eco de mil pessoas afogando-se em solidão. Conta seus mais secretos segredos como se fossem tão pequenos, mas não consegue soltar a voz e dizer o nome dela... Tenta escrever. Sente raiva do papel, parece que ele sabe que é impossível e ri como todos riem. Ninguém se importa com mais uma cena comum de drama mudo. 

Mais um amor perdido e ninguém se importa. Ninguém liga para a alma das pessoas que vão, pouco a pouco, não conseguindo quebrar o silêncio que o eco de um nome deixa em um quarto. E assim todos morrem.. Perdidos em tentar desgravar o nome de tudo o que vêem. 

sexta-feira, outubro 05, 2012

Não, nem está frio lá fora. Esses casacos que ela coloca na mochila são atos involuntários que não tem a ver com a temperatura corporal. O frio vem de dentro, e os casacos só servem para acobertar o medo que ela tem de descobrir isso.

A insônia produz mesmo essa vontade de pegar o telefone e gritar qualquer coisa, qualquer frase, qualquer choro, qualquer pergunta que desperte a voz do outro em resposta, para acalmar a alma doente.
Mas ela não se arrisca, e encontra-se, mais uma vez, andando trôpega por suas próprias pegadas.

domingo, setembro 30, 2012



segunda-feira, setembro 17, 2012

Ela tinha uma vontade repentina de gritar todo dia em que acordava. Tinha também um súbito desejo de voar para outra cidade onde ninguém soubesse seu nome... Fazia parte do grupo das pessoas mais inexplicáveis. Inconstante, poderia mudar de roupa cem vezes antes de sair, mudar de bebida preferida, de planos, de boca para beijar...
Mas um murmurio insistente hoje ecoa em seus ouvidos o dia inteiro, é aquela leve brisa de humanidade que sente como chuva fina. Ela que gostava de pensar que encara a vida sem remorso por nunca fingir, agora sente frio igual a todo mundo.

Hoje quando acordou, escreveu: "Já estava na hora de voltar, de deslizar os dedos pela caneta assoprando para longe as nuvens que escurecem o meu céu. Já estava na hora de voltar, de deixar registrado aqui o quanto é difícil fazer de conta que não senti falta de escrever..."

Rele a frase e encontra-se distante de tudo o que foi até hoje. Não consegue mais descartar a hipótese de que está se reinventando. Sente medo de perder a poesia dentro de si, se perder a solidão que sempre a acompanhou.

"Mas não era isso que você queria? Amar e esquecer essa vida de escritos vazios?" Diz pra si.


Não, não era isso, nunca vai ser isso... Ainda uso minhas reticências...

quarta-feira, agosto 01, 2012

Interferência pró-ativa de memória fracassada.


Uma chave dentro de uma caixa que é aberta assim que a decepção chega de novo aos meus ombros, destranca a gaveta que revela minhas fotos antigas. Ando pelo quarto espalhando meus retratos por ele... Preferia não vê-los, eles me fazem sentir uma saudade cada vez maior da menina nas fotografias. Mas percebo em mim a necessidade de me encarar, de olhar para cada uma dessas que fui e dizer que sinto muito... Elas parecem um amontoado de coisas boas vistas separadamente, mas no fim, borro cada vestígio de sorriso quando meus olhos se enchem das lágrimas que eu já esperava que caíssem.

Outra vez essa casa está toda sobre minha cabeça, outra vez passo por esse grito interno, outra vez essa sensação de "minha vida tem se baseado em histórias que me conto sobre o que ela deveria ser" invade cada poro da pele.


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Deixei o corpo dela quebrar minha existência em pedaços. Diversas vezes tive que remontar minhas partes vitais para continuar respirando ao seu lado, e juntando primeiro os pedaços que me deixam de pé, acabei esquecendo os que me deixam feliz.

Esperei que ela visse os detalhes que faltavam nesse meu corpo incompleto. Fiquei treinando minha memória para resistir a toda a decepção recente para lhe dar mais tempo. Esperei que ela me fizesse sentir de novo como a menina das fotos, como fazia antes... Mas não, existe uma certeza que me invade agora, e que constrói novamente o muro que foi quebrado para que não ficássemos separadas... Ela nunca quis estar comigo, mas as circunstâncias vieram como boas desculpas para estar. 

quinta-feira, julho 19, 2012

the only exception...


Andando pela cidade de repente vejo aqueles prédios, aqueles você mais amava... Lembro que antes eram construções mal acabadas, nem pintadas estavam e tão pouco havia alguém sorridente na parte de dentro. O caso é que eu gostava de perguntar por que eram tão especiais só para te escutar dizendo: "você sabe, eu te vi olhando eles antes de me ver, e quando os vi refletidos nos teus olhos me apaixonei por eles também".

E não se precisava provar mais nada.

Como eu poderia imaginar que isso soaria ainda mais bonito agora que realmente sinto o que você falava? Queria que estivesses aqui para me ouvir falar de amor também, e ver que o meu é parecido com o que o seu era, mesmo que não seja para você. Sei que entenderias quando eu dissesse que encontrei minha exceção, e que tudo que os olhos dela refletem fazem os meus encherem-se de lágrimas.

Queria tanto você aqui agora... Sei que verias o tamanho desse amor e eu não me sentiria mais tão pequena perto dela, porque depois disso você nunca mais teve o mesmo tamanho pra mim...

sábado, julho 14, 2012


Quase sufocas outra vez, e o meu peito já não tem mais ar pra te doar. Tropeças direto pro abismo das tuas pré-suposições e meus braços já sem forças, não te seguram mais.

E sinto como se tivesse que te dizer "vai ficar tudo bem". Mas é triste ver todas essas fotos e comparar com a memória recente de nós duas.

E é agora que eu sinto a tua falta.

Todo o caminho que percorremos e as conversas esclarecedoras não vão nos ajudar agora que não conseguimos dar um beijo de despedida... Sabemos.

Sinto como se tivesse que te abraçar e dizer "você vai ficar bem". Mas sou do tipo de pessoa que sempre fica assim sem jeito de falar, me sentindo uma vida inútil sem saber onde é o ponto que termina a minha própria frase, repetindo ao teto versos de atitudes que nunca realizarei.

sexta-feira, junho 22, 2012

Dando-me adeus.


Estive mentindo sem saber, quando pensei entender o que eu falava sobre mim naquele tempo.
Um ano ou dez, quantos quilômetros andei? Nenhum centímetro com meus próprios passos.
Então eu venho pensando em você dirigindo sozinha, e não faz sentido tudo fazer sentido só agora.
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Chegas devagar me fazendo perceber que o tempo não fez nada por mim. Vejo meus dias voando pela janela e ninguém os segura, são brisas insignificantes.
E podes dizer que é muito fácil falar, e que tem um milhão de estrelas que concordam contigo. Mas elas também estão sozinhas.
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É quando te vejo chegando e todas as cicatrizes, ao redor do meu corpo, não doem mais aos meus olhos... Assim entendo o quanto eu só olhava para elas antes do teu rosto me causar maior efeito perturbador.
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Estou olhando para mim, de novo, cegando-me para ver por dentro. Sentando aqui jogando conversa fora com o espelho, tento distrair a visão enquanto não chegas. Mas só consigo pensar no que tu vês, no que está vendo agora, com esses teus olhos inseguros.
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E cada dia que eu disse que queria ser alguém diferente mas não hoje foi apagado da memória junto com todas essas coisas que flutuam ao meu redor sobre quem eu era. Elas caíram no chão, dando-me adeus.
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As pessoas pensam que o tempo tem algo a ver com elas porque não conseguem ver o que eu vi naqueles olhos inseguros. E um milhão de estrelas que os escoltam até em casa, tiram fotos do seu rosto, que recebo em forma de sonho.
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Então acordo pensando em você dirigindo sozinha, e não faz sentido tudo fazer sentido só agora, com apenas um feche de memória...

segunda-feira, junho 11, 2012

Ela vai pular.

Ela deu dois passos a frente e inclinou a cabeça deparando-se com uma altura que ninguém que não queira abandonar a vida enfrenta. Logo seu corpo a trouxe para o meio do terraço a fim de que ninguém a visse nesse misto de covardia e sinceridade. Sabe que qualquer um a acharia louca, e que se desistisse, seria a única a decepcionar-se por realmente não ser.
Não conseguia enxergar a paisagem, tão pouco escutar os carros e os barulhos da cidade... Só ouvia o som do seu cigarro queimando o papel que seu lábio tragava, empurrando mais fumaça a um pulmão que logo deixaria de fazer o seu trabalho.

Mas faltava alguma coisa, alguma lágrima ainda não tinha caído... E antes disso seus membros se tornaram imóveis a espera de "sabe-se-lá" que constatação que fosse um impulso para a queda.

Juntou as mãos e assoprou ar quente entre os dedos "minhas mãos nunca permaneceram quentes por muito tempo mesmo", pensou.

Fechou os olhos procurando algum feche de luz dentro da sua cegueira, encarou o vento de rosto aberto procurando algum cheiro familiar que a faria mudar de ideia... De repente, o mundo aquietou-se quando seu peito gritou que foi a dúvida que a trouxe até ali, que essa dúvida sempre esteve ali, e que não poderia mais viver pensando se é normal ou não ser ela, do jeito que é, porque nunca pareceu ser...

Instantaneamente seu corpo relaxou como se ouvisse Bach como quando era pequena e nada a atingia estando sozinha. Abriu os braços abraçando a certeza de que não sabe porquê se tornou essa pessoa no terraço do prédio, e que sonhou com o dia em que isso não doeria mais, que sempre sonhou em não precisar de explicação para sua existência...

Foi quando sorriu, e escutou em sua mente uma campainha tocar antes da queda livre... Ela pulou do prédio de vinte andares, abrindo em seu pensamento, a porta para enfim entrar a sua paz.

quarta-feira, junho 06, 2012

Choices.

-Voltando a caneta pro papel, os dedos nas cordas do violão, ouvidos na música, pés no chão sentindo o calor da terra... Penso que estou viva.

-Estou viva com os dedos no papel, ouvidos nas cordas do violão, voltando a caneta à música... Mas o calor da terra me faz pensar:  "Pés no chão".

-Pés no chão, calor de música, dedos nos ouvidos...Voltando à terra penso em caneta e papel, e logo estou viva nas cordas do violão.